A compulsão alimentar costuma ser interpretada como falta de controle diante da comida. Mas, para quem vive esse comportamento no dia a dia, a realidade é muito mais complexa.
Comer sem fome, repetir episódios à noite, sentir culpa depois… esses padrões não surgem por acaso. Eles fazem parte de um ciclo que, muitas vezes, começa muito antes do alimento.
Segundo a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, especialista em transtornos de compulsão, o ponto central não está na comida, mas na forma como a pessoa lida com suas emoções.
“A compulsão alimentar não começa na comida, ela começa no que a pessoa está sentindo e não consegue elaborar”, afirma Caliani.
Na prática, isso significa que emoções como ansiedade, estresse, frustração e até solidão podem funcionar como gatilhos. Ao longo do dia, essas sensações vão se acumulando até que o corpo busca uma forma de aliviar, e a comida aparece como uma resposta rápida.

Esse padrão ajuda a explicar por que muitas pessoas relatam piora da compulsão no período da noite.
“Quando o ritmo desacelera, as emoções aparecem com mais intensidade. A comida acaba funcionando como uma tentativa de regulação emocional”, explica a psiquiatra.
Outro ponto importante envolve o cenário atual, em que medicamentos para controle de peso, conhecidos como “canetinhas”, ganharam popularidade. Embora possam auxiliar no controle do apetite, eles não resolvem, sozinhos, o comportamento compulsivo.
“O medicamento pode ajudar no aspecto físico, mas se a causa emocional não for trabalhada, o padrão tende a se repetir”, afirma Dra. Maria Fernanda.
A compulsão alimentar costuma seguir um ciclo: restrição, gatilho emocional, episódio de exagero, culpa e tentativa de compensação. Sem intervenção adequada, esse ciclo se mantém e se repete.
Mais do que interromper o comportamento, é preciso compreender o que está por trás dele.
“Não é sobre força de vontade. É sobre aprender a identificar emoções, criar estratégias e desenvolver novas formas de lidar com o que se sente”, ressalta Caliani.
No dia a dia, algumas atitudes podem ajudar a reduzir esse padrão. Fazer pausas antes de comer, identificar se a fome é física ou emocional e observar quais situações disparam o comportamento são passos importantes. Estruturar a rotina alimentar, evitar longos períodos de restrição e cuidar do ambiente também contribuem para mais equilíbrio.
Mas, acima de tudo, é fundamental mudar a forma como se enxerga o problema. “A pessoa que vive a compulsão não é fraca. Ela está tentando lidar com algo que ainda não sabe como resolver”, afirma a psiquiatra.





